O dossier da Candidatura de Vila Viçosa a Património Mundial da UNESCO vai sofrer alterações profundas, deixando de se centrar na ‘Vila Ducal Renascentista’ e focando-se noutra narrativa que passa pela Casa de Bragança e pelo culto a Nossa Senhora da Conceição, revelou o arquiteto Nuno Lopes, que está agora a coordenar os trabalhos.
O arquiteto Nuno Lopes falou sobre a candidatura na reunião da Comissão Técnica da candidatura, que se reuniu no Seminário São José, na manhã desta segunda-feira.
Segundo Nuno Lopes, “foi determinado dar um novo rumo à candidatura”, salientando que “é desafio de loucos, porque temos muitíssimo pouco tempo para corrigir e para reorientar aquilo que durante dez anos foi feito, pois, há muitos estudos feitos e são fundamentais, como é óbvio, mas precisamos de acrescentar mais alguns”.
O arquiteto especificou que “o dossiê da candidatura tem de ser claramente um documento que seja percetível por gente de todas as línguas, de todo o mundo e não pode ser um texto muito condensado e muito hermético”.
Segundo o responsável, no atual dossiê “há um problema de comunicação, um problema de narrativa e, portanto, tem de ser uma comunicação que quanto mais cartográfica, quanto mais direta, melhor, porque muitas vezes explicar esta cronologia e esta sucessão de acontecimentos é extremamente difícil para quem não conhece Portugal e não conhece Vila Viçosa”, logo “temos várias questões a fazer, uma delas é a própria cronologia da evolução do bem e, por outro lado, criar uma linha temporal, ou seja, perceber a sucessão dos acontecimentos”, destacando a “linha dos acontecimentos internacionais, porque quem está de fora precisa da história mundial, para poder perceber em que determinado momento é que aqueles acontecimentos sucedem cá em Portugal e sucedem cá em Vila Viçosa, nomeadamente.”
O arquiteto Nuno Lopes deixou claro que “aquilo que é bom, aquilo que restou, que foi preservado em Portugal, muitas vezes pode não ter qualidades para chegar ao nível de património mundial, é certo que a moda agora é ser património mundial, toda a gente aspira, mas nem sempre há qualidades suficientes”, por isso, nesse sentido “a Vila Ducal Renascentista não tem qualquer hipótese, porque não nos vamos comparar com qualquer vila ou cidade italiana, o que significa que nós temos que estudar qual é o nicho do património mundial onde nos podemos encaixar, porque centros históricos já há muitos”.
“Temos de escolher um nicho para Vila Viçosa e temos de escolher uma narrativa e temos que decidir o que é que queremos com Vila Viçosa, o que é que a candidatura adianta ou não adianta a Vila Viçosa”, frisou.
Sobre a nova orientação da candidatura, Nuno Lopes afirmou eu “terá de ser algo que diga mais às pessoas, que transforme a sua própria vida, que não seja só o peso dos regulamentos e o peso das responsabilidades, mas que seja também, obviamente, um fator importante para o desenvolvimento e para a autoestima.”
De acordo com o agora coordenador da candidatura, “na atual candidatura tínhamos um foco que errado, pois, não podemos candidatar a Vila Viçosa, não falando da Casa de Bragança, como é evidente e, portanto, a história da Casa de Bragança marca Vila Viçosa desde princípio até ao fim, não há qualquer hipótese de se fazer uma candidatura onde se fala de Vila Viçosa, esquecendo o papel fundamental e não tendo o foco principal na Casa de Bragança, parece-me, digamos, absurdo”, acrescentando que, “a Casa de Bragança passa a ser, digamos, o fio condutor da candidatura”.
Foi ainda revelado que “a peça diferenciadora da candidatura passa a ser o culto da Imaculada Conceição, a importância que teve e começa com a Casa Bragança, com Dom Nuno, no fundo, digamos, todo esse percurso que depois as casas religiosas tiveram influência e toda a envolvência do apoio do ducado e da casa ducal e essa mesma fé, que era uma fé popular e que depois acabou por ser aceite pelos duques e acabou por ser, através do rei, digamos, o suporte para a sua consolidação no próprio poder.”
Já sobre o propósito da candidatura, Nuno Lopes adianta que “só há uma questão, é que a Fundação tem um arquivo absolutamente extraordinário, a câmara também tem um arquivo, há arquivos particulares, arquivos da igreja nas diferentes suas componentes e a maior parte deles estão por estudar, logo, o que nós temos é a hipótese de transformar de alguma maneira estas esta vila num centro de estudos daquilo que era a pré e pós união das duas. Vila Viçosa poderá vir a ser sítio onde se pode investigar, onde se pode abrir ao conhecimento público estes arquivos e onde é preciso juntá-los todos também”.
Concluiu afirmando que “o que interessa a Vila Viçosa é depois ter um turismo cultural, não interessando o turismo de massas que depois vem perturbar Vila Viçosa, vem perturbar os moradores e vai dar uma pressão sobre uma vila relativamente pequena que é organizada e às tantas pode ser complicado”.


















