InícioAlentejoAlentejo CentralAutarca de Viana do...

Autarca de Viana do Alentejo desafia à «valorização da posição do mestre» no arranque do FICO (c/fotos)

Luís Metrogos alertou, na abertura do FICO, para o risco de desaparecimento da olaria tradicional de Viana do Alentejo.

Na Praça da República, em Viana do Alentejo, o barro voltou esta sexta-feira a ocupar o centro da vila. À volta das bancas, das peças moldadas à mão e das oficinas instaladas no coração do centro histórico, ouviam-se conversas, música e passos de quem entrava no FICO — Festival de Ilustração e Criatividade em Olaria.

Mas, por detrás da abertura da quinta edição do festival, houve uma preocupação que atravessou o discurso do presidente da Câmara Municipal de Viana do Alentejo: o futuro da olaria tradicional do concelho.

«Preocupa-nos muito neste momento o número de oleiros que temos», afirmou Luís Metrogos ao Jornal ODigital.pt, pouco depois da inauguração oficial do evento. «Neste caso temos dois oleiros a funcionar ativamente.»

A frase foi repetida de diferentes formas ao longo da tarde. Entre o discurso institucional e a conversa informal, o presidente da autarquia insistiu numa ideia: Viana do Alentejo continua a ser terra de oleiros, mas corre o risco de deixar de o ser.

Uma tradição com dois séculos

A olaria faz parte da identidade histórica do concelho. Luís Metrogos recordou que Viana do Alentejo teve uma das primeiras escolas industriais ligadas à olaria em Portugal, a Escola Médica de Sousa, criada no século XIX.

«A olaria em Viana do Alentejo tem uma tradição desde há dois séculos», lembrou o autarca.

Durante décadas, o barro foi um dos elementos centrais da economia local. As peças produzidas serviam o quotidiano doméstico, os trabalhos agrícolas e os cozinhados tradicionais. Hoje, a realidade é diferente. O número de artesãos reduziu-se e a continuidade da atividade tornou-se uma preocupação para o município.

Nas palavras proferidas, Luís Metrogos chegou mesmo a utilizar uma expressão que arrancou algumas reações entre o público: «Estamos reduzidos, digo isto muitas vezes, com todo o respeito, a um oleiro e meio.»

A referência era dirigida à família Agostinho, uma das últimas referências da olaria tradicional local.

O barro como experiência

Ao longo da inauguração, o presidente da Câmara destacou o trabalho desenvolvido por Feliciano Agostinho e pelo filho, considerando que a capacidade de adaptação da olaria aos novos tempos poderá ser determinante para a sobrevivência da atividade.

«Hoje em dia, essa utilização tem de ser renovada», afirmou, defendendo que o barro já não pode depender apenas da função utilitária que teve no passado.

Para Luís Metrogos, a ligação entre olaria, turismo e experiências criativas pode abrir novos caminhos.

«A capacidade de reinvenção […] através da ilustração, mas também da dinamização de olhar para o turismo e perceber como se pode vender a arte de mexer no barro como experiência, esse deve ser o caminho», afirmou.

É precisamente essa ligação entre tradição e contemporaneidade que o FICO procura explorar. O festival junta oficinas, exposições, ilustração, música e atividades ligadas à cerâmica e ao barro, tentando aproximar novos públicos de uma arte tradicional.

“Precisamos novamente de escola”

Mas para o presidente da Câmara, o problema vai além da promoção cultural. A preocupação é estrutural e, segundo afirma, atravessa várias profissões ligadas aos ofícios tradicionais.

«Nós precisamos novamente de escola. Nós precisamos novamente de escola para as artes e saberes», defendeu durante a inauguração.

Na visão do autarca, a valorização dos mestres artesãos perdeu espaço ao longo das últimas décadas, afastando os mais jovens deste tipo de profissões.

«Como o mestre oleiro deixou de ser atrativo aos nossos jovens, não teremos um mestre na carpintaria, não temos um mestre na eletricidade», alertou.

A autarquia pretende agora aproximar a olaria das escolas e das Atividades de Enriquecimento Curricular, numa tentativa de criar contacto entre as crianças e esta tradição local.

«Queremos voltar a valorizar a posição do mestre», afirmou Luís Metrogos. «Temos esse objetivo de fazer chegar [a olaria] às escolas.»

Uma identidade que resiste

Enquanto decorria a inauguração do FICO, a Praça da República mantinha-se cheia. Crianças experimentavam mexer no barro. Visitantes observavam as peças expostas. Turistas fotografavam demonstrações de olaria.

No centro da praça, as mãos continuavam a moldar o barro da mesma forma que o fizeram durante gerações.

Para Luís Metrogos, é precisamente aí que reside o principal desafio: impedir que essa imagem desapareça.

«Temos que valorizar aqueles que temos e temos que tentar agregar mais para que não se perca», afirmou o presidente da Câmara.

Mais notícias

O cante alentejano chega aos domingos em Beja

O restaurante Chaparro Alentejano, integrado no Holiday Inn Beja, lançou os “Domingos do Cante”,...

Beja recebe Festival Nacional da Canção Rural a 27 de junho

Beja vai receber, no dia 27 de junho, a 5.ª edição do Festival Nacional...

Marco Oliveira e José Peixoto levam música e poesia marítima a Grândola

Marco Oliveira e José Peixoto apresentam, na próxima sexta-feira, 19 de junho, às 22h00,...

Feira do Campo Alentejano mostra potencialidades do concelho de Aljustrel

Música, cante alentejano e uma mostra de produtos tradicionais são alguns dos destaques da...

Estremoz recebe ação de pintura ao vivo no centenário da elevação a cidade

Estremoz recebe, no dia 27 de junho de 2026, a iniciativa “Pintar Estremoz.Centro Histórico”,...

Alcácer do Sal assinala Dia do Concelho com fado e cerimónia de hastear da bandeira

Alcácer do Sal assinala o Dia do Concelho com um programa que decorre nos...

Encantos do Guadiana regressa a Quintos (Beja) com cultura, biodiversidade e animação

A aldeia de Quintos, no concelho de Beja, recebe nos dias 19 e 20...

Festival Andanças adiado para 2028 devido à participação da PédeXumbo em Évora 2027

O Festival Andanças não terá edição em 2027 e deverá regressar em 2028, anunciaram...

“StoryPath”: Designer calipolense cria projeto de “posto de turismo” de bolso para ajudar turistas em Vila Viçosa

Um designer natural de Vila Viçosa desenvolveu uma plataforma digital que pretende ajudar turistas...

Mais visto