O debate entre Pacheco Pereira e André Ventura foi vendido como um serviço público sobre a nossa memória histórica e acabou num número de variedades miserável. A televisão teve a sua noite, mas o país não ganhou nada. A nossa experiência colectiva do Estado Novo, da guerra colonial e da transição democrática não deveria ser tratada desta forma.
O problema não está apenas em Ventura, embora inevitavelmente comece por aí. A especialidade do líder do Chega é a insinuação, números atirados ao ar sobre “presos políticos depois de Abril”, equivalências entre a violência revolucionária e a violência do Estado Novo, a ambiguidade calculada entre “guerra colonial” e “guerra do ultramar”. Uma velha táctica de baralhar conceitos, nivelar culpas, reduzir cinquenta anos de clarificação histórica a um debate onde tudo é discutível e nada é verdadeiramente sério.
Pacheco Pereira, que fez carreira a desmontar revisionismos, devia ter percebido melhor do que ninguém o terreno onde estava a entrar. Ao desafiar Ventura para um debate “com factos e documentos” e ao aceitar o circo montado para o demagogo, acreditando que sairia de lá com a respeitabilidade intacta, cometeu um erro. A televisão não vive de silogismos, vive de clipes, e o instante em que o historiador encurrala o populista dissolve‑se rapidamente na baralhada de interrupções, indignações, números e casos soltos.
Em história, não se debate com quem ignora de propósito, porque não há terreno comum. O historiador parte de documentos, fontes e disciplina de leitura. O populista parte do efeito imediato que uma frase pode ter num público cansado e desencantado.
A certa altura já ninguém discute o essencial, discute‑se, sim, a normalização de um regime que proibiu partidos, censurou jornais e cerceou liberdades, direitos e garantias.
O resultado era previsível: o debate foi mais um palco 50 minutos em prime time para Ventura exibir a sua persona de pseudo‑perseguido por uma elite intelectual que se recusa a ouvir “o povo”.
A forma leviana como a nossa história foi, e tem sido, tratada não se mede apenas na ignorância factual. Mede‑se na facilidade com que se fala da guerra colonial e dos presos do PREC como se a prisão política fosse uma variável contabilística, útil para reabilitar, por via aritmética, um regime que institucionalizou censura e polícia política. Mede‑se na ligeireza com que se coloca a democracia no banco dos réus, não para a avaliar criticamente, mas para sugerir uma equivalência com a ditadura, num truque bafiento que permite aos ressentidos de hoje reconciliar‑se com os autoritarismos de ontem.
O essencial do debate devia ter incidido sobre o PREC, que não era ainda a democracia que hoje temos, foi, antes de mais, uma explosão de liberdade num quadro político revolucionário. Só com o fim da tutela militar e a estabilização das instituições é que a democracia se consolidou. E esse regime, com todos os seus defeitos, não se compagina, nem com o PREC, nem com o Estado Novo e as suas atrocidades.
A história não é apenas mais uma opinião sem rigor, e a mentira não vale mais do que a memória do nosso país. Ventura domina esse jogo sujo, Pacheco Pereira errou ao aceitar jogá‑lo naquele terreno, e a televisão fingiu que estava apenas a prestar um serviço público. A verdade é que a história de Portugal não foi defendida nem explicada, foi usada.
A história não é um álbum de memórias avulsas, é sim, uma forma de conhecimento com método, que trabalha com problemas, hipóteses, fontes e crítica, e onde nem todas as afirmações sobre o passado valem o mesmo. Isso implica linguagem rigorosa.
Quando se despejam números soltos e equivalências no espaço público para sugerir que a democracia e a ditadura são mais ou menos a mesma coisa, não se está a oferecer “outra versão da história”, está a recusar-se as exigências mínimas de honestidade intelectual que distinguem conhecimento histórico de propaganda e “factos alternativos. Foi esse o objetivo único e final deste debate.
Os portugueses não merecem isso.
Luís Nunes dos Santos















