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A República encenada e os seus imobilistas

O texto desta semana arrisca um pequeno desvio ao comentário político convencional. Inspirado no olhar mordaz e nas cenas de salão de Eça de Queiroz, propõe uma breve ficção, uma conversa improvável, embora reconhecível, entre protagonistas do nosso espaço político.

Como em Eça, não se trata tanto do que dizem, mas do que revelam. Entre a ironia e o reconhecimento, esta breve cena pretende capturar algo mais persistente do que um debate circunstancial, um certo modo português de discutir sem verdadeiramente confrontar, de argumentar sem querer alterar, de participar garantindo que nada de essencial se transforma.

Se a situação parecer familiar, não será coincidência. Será apenas realismo inspirado em Eça de Queiroz. Comecemos:

A sala tinha o ar solene das decisões que nunca chegam a acontecer. Cortinas pesadas, cadeiras demasiado confortáveis e uma mesa onde os papéis repousavam com a tranquilidade própria das coisas que não serão perturbadas.

O PSD, com a responsabilidade visível de quem governa folheava um dossiê grosso com uma atenção que os outros dois dispensavam totalmente.

– O mercado de trabalho não está a funcionar – disse, sem ornamento. Podemos continuar a fingir que sim, mas os dados, infelizmente, não partilham desse otimismo.

O PS, recostado, cruzou as mãos com a serenidade de quem já foi muitas vezes governo e nunca teve urgência nenhuma em mudar a realidade do país.

– Há problemas. Concedeu, com magnanimidade. – Mas convém não transformar cada imperfeição numa desculpa para desmantelar equilíbrios.

“Equilíbrios”, ali, soava menos a realidade e mais a peça de museu.

– Ninguém falou em desmantelar – respondeu o PSD.  – Falámos em ajustar, com mais flexibilidade na organização do trabalho, mais negociação ao nível da empresa, menos incerteza jurídica. Nada disto é revolucionário.

O Chega, que até então observava com impaciência ruidosa, inclinou-se para a frente:

– Lá vêm vocês com as reformas. O país não precisa de experiências. Precisa de ordem.

O PSD olhou-o como se se tratasse de uma interrupção meteorológica.

– Ordem não resolve disfunções estruturais.

– E a vossa engenharia resolve? – retorquiu o Chega. – Isso é conversa da treta.

O PS interveio, com um gesto lento, quase conciliador, como quem pretende parecer acima do conflito enquanto o alimenta.

– O problema – disse – é que essa flexibilidade de que falam acaba sempre no mesmo sítio: menos proteção para quem trabalha.

– Isso é um slogan, uma frase feita para confortar quem quer tudo na mesma – respondeu o PSD, agora mais seco. – Não é um argumento.

O PS sorriu, ligeiramente ofendido, como quem vê a elegância mal compreendida.

– É uma cautela. A lei laboral não é um laboratório.

– Nem um relicário – devolveu o PSD.

Houve um silêncio breve, daqueles que não iluminam nada.

– O modelo atual – insistiu o PSD – falhou. Há cada vez mais jovens precários, salários estagnados, empresas que evitam contratar. Isto é a realidade.

– É a realidade que vocês gostam de dramatizar – disse o PS. – O sistema tem defeitos, mas garante estabilidade.

– Garante para quem já está dentro – respondeu o PSD. – E as novas gerações que tentam entrar, é uma história mais difícil e penosa.

O Chega riu-se, com desdém:

– Vocês discutem nuances. O essencial é que nada disto funciona.

– Curioso – observou o PSD. – Concorda no diagnóstico e junta-se na recusa de qualquer tratamento.

O PS ignorou a observação com a elegância treinada de quem escolhe o que ouve.

– Qualquer alteração à lei laboral – retomou – deve ser vista com extrema prudência. A história mostra-nos os riscos.

– A história também mostra – respondeu o PSD – que o imobilismo tem custos. E estamos a pagá-los.

– Preferimos esses custos – disse o PS, quase sem dar por isso – aos riscos de uma má reforma.

O Chega acenou, inesperadamente alinhado:

– Exatamente. Mais vale não mexer do que estragar.

O PSD pousou lentamente o dossiê. Era o gesto de quem percebe que o debate não está a acontecer – apenas a sua encenação.

– Portanto – disse – concordam no essencial: não fazer nada.

– Não simplifique – corrigiu o PS, com uma leve impaciência. – Fazer o necessário para preservar o que funciona.

– Que é? – perguntou o PSD.

O PS hesitou o suficiente para não responder.

O Chega levantou-se, já satisfeito com o rumo. – No fim – declarou – fica tudo como está.

O PSD olhou-os, agora sem ironia.

– Exatamente esse é o problema.

O PS ajeitou o casaco, recomposto. –  Ou a solução – disse.

A sala regressou ao seu conforto. Os papéis permaneceram intactos. E, lá fora, o país continuou, não por escolha, mas por falta dela.

E assim termina a conversa, como tantas outras. Sem estrondo, sem rutura, sem consequência. Cada um regressa ao seu papel, uns à prudência que imobiliza, outros à indignação que nada propõe, e o país, esse, permanece suspenso entre diagnósticos acertados e soluções adiadas.

Há, neste teatro discreto, uma eficácia cínica. Nada muda, ninguém cede, e todos podem, no fim, reclamar coerência. É talvez essa a mais refinada forma de conservação, não a que se proclama, mas a que se pratica com método, sob o disfarce do debate.

E, no entanto, a realidade, sempre menos paciente do que as instituições, vai-se acumulando lá fora, indiferente às subtilezas da encenação. Porque há um momento em que o imobilismo deixa de ser uma escolha prudente e passa a ser apenas isso, a razão pela qual tudo permanece por fazer.

Se Eça ainda por cá andasse, talvez não reconhecesse os nomes. Mas reconheceria, sem esforço, o essencial.

Luís Nunes dos Santos

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