Ainda antes do agravamento do contexto geoestratégico que cerca a Europa, tornou-se evidente que a crescente perda de posição no mercado global de semicondutores poderia ser um problema existencial para a nossa autonomia industrial, que depressa se traduziria na perda da independência estratégica Europeia. Em 2022, menos de 10% dos semicondutores produzidos globalmente eram-no na Europa; para as tecnologias mais avançadas esse valor era zero.
Desde essa data sob um contexto geo-estrategicamente disruptivo, os indicadores apenas se agravaram.
Para quem acredita no projecto Europeu, para todos os que presam a soberania de cada um dos Estados Membros, a qual depende da autonomia estratégica da União, o sinal de alarme suou. A agressão ilegal, a tentativa de ocupação, o assalto continuado sobre um Estado Europeu, tornou evidente a urgência desse alarme. Os alinhamentos internacionais em clara competição geopolítica com a Europa tornaram a situação de dependência nos semicondutores ainda mais insustentável.
Foi neste contexto que o Parlamento Europeu aprovou, por proposta da Comissão Europeia, o “Chips Act” (ou a directiva europeia para semicondutores). Esta decisão estava em linha com a estratégia europeia de nano e microssistemas, em vigor desde 2013, mas – não é o único caso… – sem real impacto no panorama industrial. Recentemente, em Novembro de 2023 foi lançada a “unidade de missão” (Chips Joint Undertaking) com o objectivo de implementar a “Chips for Europe Initiative”, ou a iniciativa europeia para semicondutores.
Mas…, se de facto o panorama tem que ser alterado, a saturação de estratégias a que as instituições europeias nos habituaram, não é suficiente: nada menos que uma revolução industrial tão “bottom-up” como “top-down” vai resolver o problema.
Conscientes da absoluta urgência, e da ameaça existencial que constituí o desaparecimento da Europa das cadeias industriais de semicondutores, alguns Estados Membros tomaram a iniciativa: em Março de 2025, a Áustria, a Bélgica, a Finlândia, a França, a Alemanha, a Itália a Polónia, a Espanha e naturalmente, a Holanda (país-chave neste sector) – peço desculpa se esqueço algum – comprometeram-se com a cooperação neste sector-critico através da coligação para os semicondutores. Preocupa-me que Portugal não esteja presente (e a nacional estratégia para os semicondutores, melhor ou pior, está ausente desde o início de 2024).
Em 2023-2024, uma coligação de regiões europeias lideradas pelo estado Alemão da Saxónia lançou a iniciativa regional para responder ao Chips Act com investimentos em cadeias industriais de produção de semicondutores (de acordo com a posição comum de 29 de Maio 2024). De novo vemos a iniciativa regional e local, alinhada com as estratégias europeias e iniciativas nacionais respectivas, a fazer a diferença na concretização de iniciativas complexas. Sendo essas políticas vitais para a autonomia estratégica europeias, assim o é a mobilização das regiões emergentes.
A produção de semicondutores envolve uma das mais complexas tecnologias criadas pela humanidade. O processo requer a integração de mais de 300 diferentes elementos químicos e de cerca de 50 diferentes tecnologias de ponta. Por isso, para se concretizar na escala critica (com a escala necessária) – e a tempo de responder aos desafios estratégicos europeus – necessita de uma cadeia de valor colaborativa disseminada pela maioria das regiões europeias. Todas as razões – da igualdade de oportunidades, à dissuasão pela resiliência defensiva – aconselham essa cooperação, disseminação e distribuição das unidades de produção e as cadeias de valor.
Cada linha de produção de chips corresponde a uma cadeia de valor de 16.000 nós; por isso a disseminação pelas cerca de 400 regiões europeias não faz apenas sentido, como é relativamente natural; isto é, constitui uma oportunidade real para os líderes locais e empreendedores industriais.
Assim, esta é a verdadeira uma revolução industrial que temos que encarar: uma que responde a uma necessidade geoestratégica existencial, que reverte uma realidade industrial que ser degradou rapidamente e que mitiga uma fragilidade inaceitável das cadeias de valor. Uma revolução industrial europeia que reequilibra uma concentração de recursos que só por si é perigosa, além de agravar os desafios geopolíticos. Uma revolução industrial também porque é uma em que a iniciativa local, das cidades, das regiões e dos clusters, é vital.
Nesta área a Europa não pode esperar. Nem as suas regiões ou clusters industriais. Nem tão pouco os estados Membros onde reside a soberania de decisão.
Diz o ditado que para grandes males, grandes remédios. Face ao imenso desafio global dos semicondutores, a resposta Europeia é uma revolução industrial. Uma revolução em que o protagonismo é das regiões e dos clusters industriais que redescobrem oportunidades inegáveis na cooperação, no empreendedorismo e na iniciativa e assim tomam a liderança.
No entanto as instituições nacionais têm que fazer o seu trabalho – falaremos em breve do programa STEP – e as instituições europeias têm que, decisivamente, ganhar em clareza, coerência e assertividade. Nas regiões emergentes certamente não faltaram líderes com a visão para dizer sim às oportunidades, e aos desafios, do futuro. No caso do Alentejo e do seu potencial cluster de excelência e inovação – um potencial protagonista nesta revolução industrial Europeia – o futuro é agora.















